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9
jan

A multa e o luto

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Recebi uma multa. Não foi uma qualquer, mas sim uma “infração gravíssima ao artigo 280, parágrafo terceiro do Código de Trânsito Brasileiro”. Para os não entendidos, o condutor infrator, vulgo eu, foi flagrado fazendo uso de telefone celular com o veículo em movimento. Veículo em movimento, segundo o CTB, é qualquer carro que não esteja estacionado apropriadamente com o motor desligado (meu nazista gramatical interior grita).

No momento que recebi a notificação de autuação já comecei a desacreditar do carteiro. “Não, você não pode estar fazendo isso comigo!”, dizia eu incrédulo. “Mas eu sou só dos Correios, moço”, respondia o rapaz de azul e amarelo inocentemente constrangido. “Eu não posso estar recebendo uma multa I-D-Ê-N-T-I-C-A à de um mês atrás. Eu mereço!”, saí vociferando, praguejando e mancando, visto que estou com o pé quebrado.

Nisso minha cabeça fervilhava. O universo estava de sacanagem com a minha cara. Já não basta estar preso em casa, com o pé quebrado, um calor dos infernos, ainda me vem outra multa. Ainda por cima um repeteco da anterior, nem para serem originais! Malditos periquitos, câmeras de trânsito e delatores de infratores de trânsito. Que vocês passem a eternidade pisando em legos e batendo o dedinho na quina da mesa.

Para completar a tragédia só faltava agora começar uma terceira guerra mundial ou termos a volta do Roberto Carlos nos especiais de Natal. Comecei a relembrar de todas as catástrofes que assolaram a minha vida, desde a tia da cantina me dizer que tinha acabado a coxinha lá pelos meus 11 anos, até todos os vídeos de alguém maltratando animais. O mundo está perdido!

Mas, talvez nem tudo estivesse perdido. Quem sabe a minha situação fosse passível de salvação. Passei a procurar freneticamente alguma forma de não pagar a multa. Vasculhei a internet e mandei mensagem para vários conhecidos esperando alguma resposta para o meu dilema… afinal, eu era uma pessoa boa, não poderia estar acontecendo isso comigo. Tentei lembrar quem poderia assumir os pontos. Cogitei pedir patrocínio familiar para dividir as despesas. Enfim, tudo isso num intervalo de 15 minutos de autonegociações.

Foi então que me bateu a triste realidade: eu teria que arcar com as consequências dos meus atos, como gente grande. “É, mané, agora você vai ter que dominar essa bola no peito e assumir a bronca. Não foi você o bonzão que não conseguiu esperar até estar fora do carro para olhar o zap zap? Então. Te vira! Dá teus pulo!”

Não sei vocês, mas a minha voz interior faz bullying comigo. Eu a imagino como um daqueles atores de filmes de ação: dois metros de altura, 120 quilos de puro músculo e poucas palavras para dizer, exceto meia dúzia de frases de efeito. Ou quem sabe minha voz interna seja o Mano Brown do Racionais MC.

Mas daí o meu lado suscetível veio à tona. Relembrei de todos os momentos em que a vida tinha me derrubado do meu unicórnio lilás, como diz o Leandro Karnal. Senti de novo todas as tristezas de todos os castelinhos de areia que construí com as minhas expectativas de vida. “Nada dá certo pra mim, mesmo! Minha existência é uma mentira! Leave Britney alone!”, dizia meu outro eu interior que mais parece uma adolescente fã de Hanson quando descobre que eles estão velhos demais para responder às 673 cartas de amor enviadas 20 anos atrás.

Foi quando uma outra voz interna, esta bem mais racional, sensata e madura, me disse: “Ei, já deu. Toda ação tem uma reação, não adianta espernear nem querer chantagear o universo. Tudo acontece por um motivo. Senta, reflete e só aceita”, disse meu eu interno que mais parece uma astróloga ou psicóloga transpessoal de quarenta e poucos anos com aquelas roupas indianas e sandália de Moisés. E sabe que a moça aqui de dentro tinha razão? Parei. Devo, não nego, pago quando puder. Só tenho que andar na linha por um tempo agora para não perder a carteira, parar de ser tão cabeçudo e passar a respeitar as leis de trânsito. Uhul, estrelinha para mim.

Antes que eu comece um diálogo entre o Mano Brown, a fã do Hanson e a psicóloga transpessoal, quero dizer que depois disso tudo eu tive uma epifania: Eu acabei de superar o luto pela multa de trânsito!

Você provavelmente já ouviu falar que quando perdemos um ente querido passamos pelo processo do luto. A tristeza, a negação, a raiva e a falta de aceitação hoje são sentimentos bem conhecidos e reconhecidos por aqueles que já sofreram alguma perda. Isso se deve ao trabalho da psiquiatra suíça Elisabeth Kübler-Ross, autora do livro On Death and Dying, em que apresenta o modelo que leva seu nome. Este modelo descreve estágios pelos quais passa uma pessoa quando lida com perdas, luto e tragédias. Eles se tornaram populares e são conhecidos popularmente como Os Cinco Estágios do Luto: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. Reconheceu algum no meu relato ali em cima? Muito bem, continue.

Neste ponto você deve estar se perguntando: “Mas que diabos o luto tem a ver com uma multa de trânsito?” Eu explico. Kübler-Ross, ou Bete para os íntimos, explicou que esta metodologia aplica-se a qualquer forma de perda pessoal “catastrófica”. Além disso, também alegou que nem todo mundo passa por todos os estágios ou nesta ordem específica, mas que todos experimentam pelo menos dois.

No meu caso, tudo aconteceu num intervalo minúsculo de tempo, com alguns surtos psicóticos internos das vozes na minha cabeça e coceiras dentro da bota que está aprisionando meu pé numa existência horrível. Porém, é bem nítido que os aspectos do luto descritos pela Bete podem se encaixar nas mais variadas situações da vida, não precisa ser só no velório daquele tio, a que sua mãe obriga a ir mesmo sabendo que você só o viu duas vezes quando estava de fralda e aparentemente arrancou um tufo de cabelo da orelha dele com um golpe de gengiva.

Existem nuances diferentes da importância das coisas para as pessoas, os indivíduos têm histórias de vida, formações e aptidões diferentes entre si. Não podemos colocar todos em uma caixinha só, mas podemos destruir as caixinhas e perceber que tudo pode se aplicar a todos em alguma situação ou momento, e tudo pode ser compreendido de uma forma mais leve, inclusive o luto.

Câmbio, desligo.

Lucas Jensen

2
dez

Os antenados

cor

Eles não nos dão paz, não nos deixam ter alegrias pueris, dessas que sentimos ao contar uma novidade.

Você descobre uma loja barateza e o antenado já comprou lá, mas sabe de outra ainda melhor e você fica se achando meio trouxa.

Em viagem, você faz fotos na praia mais bonita que já se viu, mas o antenado corre pra perguntar se você foi nas maravilhosas ruínas que ficam lá naquele morro não sei das quantas.

É claro que você não foi, nem viu as velhas termas em que os gregos e os romanos viveram os dias mais sexies da humanidade. Perdeu, já voltou pra casa fazendo cara de tô nem aí, mas se roendo por dentro.

O antenado sabe o nome, a marca e o princípio ativo do remédio mais moderno e eficaz para retardar o envelhecimento da pele, o entupimento das artérias, a decadência dos hormônios e a unha encravada.

E você, que estava tão feliz tomando uns florais e usando umas pomadinhas, percebe que dá largas e desatualizadas passadas em direção à ruína física e mental.

Os não antenados lêem livros, vêem filmes e se divertem com séries na Netflix. Coitados, nem imaginam que os antenados já superaram essas velhas mídias.

E lá vêm eles com tecnologias das quais você nunca ouviu falar, serviços de streaming impronunciáveis e – pior – autores, diretores e atores que circulam num futurístico Olimpo das artes. Coisa para antenados, apenas.

Meu Deus, nem vamos falar de vinho, café, queijo, cremes, perfumes, música, crianças, pets, redes sociais e, até, á-gua-mi-ne-ral (?!?)…

Eu não odeio os antenados. Ao contrário. Tenho amigos e amigas que sempre sabem das últimas, enquanto eu ainda ando pelas antepenúltimas.

Também não invejo os antenados. Mas às vezes me dá uma raivinha por nunca conseguir contar uma novidade. Você não dá furo com um antenado por perto. E o bom e antiquado furo é bálsamo para a alma de velhos jornalistas.

Antenados das minhas relações, ao lerem esse pequeno desabafo, darão um jeito de fazer chegar aos meus ouvidos que essa tribo nem existe mais. Antenado é vocábulo superado, assim como ligado e conectado (sim, fui ao dicionário buscar sinônimos).

Do que devemos chamá-los, então? Trend designers, cool hunters, chatos de galocha, desmancha-prazeres…? Completem a lista aí, enquanto me recolho ao meu mundinho old school.

Dia desses, quem sabe, consigo dar um nó num antenado, nem que seja inventando.

(A propósito, sabiam que a Pantone escolheu as cores azul e verde para 2020?)

Beijos ressentidos,

Marisa

21
nov

Terapia

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Sempre que alguém chega para mim com uma situação impossível de resolver ou um trauma daqueles de desgraçar a cabeça, eu indico terapia. Sempre que alguém se sente confuso, perdido ou muito triste, eu indico terapia. Eu indico terapia para o meu pai. Eu indico psicólogos. Eu passo telefone. Eu falo sobre como a terapia é benéfica e poderia resolver todos os nossos problemas. Mas euzinho mesmo nunca fiz terapia. Eu, não. Eu era um grande e gostoso de um hipócrita.

Não mais. Comecei terapia.

Eu relutava. Relutava por que tinha fechado a minha torneira de emoções há muito tempo. Sempre que alguém pedia para contar sobre a minha vida ou como eu estava naquele momento, eu fazia manobras na conversa que até Freud ficaria admirado, tudo apenas para que a pessoa continuasse a falar dela e não de mim. Como as pessoas adoram falar sobre elas mesmas, nem era tão difícil.

Por anos foi assim. Há anos sofro com uma ansiedade que não me larga. Há anos antecipo problemas e destruo momentos. Há anos reprimo sentimentos felizes porque eu sou uma pessoa contida. Há anos eu construo dentro de mim uma baixa autoestima que, menina do céu, é paralisante. Mas eu disfarço com piadas, ironias e autodepreciação, porque é muito melhor ser negativo. A positividade irrita.

Mas isso está ficando no passado. Aos poucos, bem aos pouquinhos.

Logo na segunda sessão de terapia eu tive que escrever uma carta fictícia me apresentando para alguém que não me conhecia. Fui sincerão no texto e me expus quase que completamente. Eu só não contava que a minha terapeuta iria ler a carta em voz alta. Foi um choque, porque constatei que eu sou carinhoso com muita gente, menos comigo. Aliás, eu sou extremamente tóxico comigo mesmo.

Mas a questão é que somente agora eu estou conseguindo organizar as ideias e entender como eu me vejo, me comporto e me sinto perante várias situações da vida. Somente depois de começar terapia eu percebo que aquilo lá que aconteceu em 1996 e que eu contava como se fosse piada, na verdade me moldou de uma maneira que eu jamais tinha imaginado. Aquele fato em 2011 fez eu mudar de uma maneira irreversível. Aquela frase ouvida me mudou para melhor. Aquela outra frase me destruiu.

Mas só agora eu consigo analisar coisas que sozinho eu não conseguiria. Só agora eu tento olhar para quem eu sou hoje de uma maneira mais delicada. Porque tem coisas que a gente não consegue analisar sozinho, por mais que a gente ache que sim. Somos muito teimosos.

No fim, o que todos nós precisamos é de terapia, e eu gostaria de pagar um terapeuta para todo mundo, porque só assim seria possível parar de fazer terapia, já que só sentamos no divã porque os outros não fazem terapia. É isso. É um ciclo horroroso.

Cada um de nós carrega aquele símbolo de frágil na testa, mas a gente esconde e os outros fingem que não carregam. Tá certo que todos nós passamos por poucas e boas nessa estrada da vida, e com isso acabamos vestindo uma certa resiliência, mas isso não quer dizer que as coisas não se quebrem dentro de nós. E aí ninguém se preocupa com a dor e a bagagem do outro. Saem empurrando e derrubando sem o menor cuidado com o próximo. A grosseria anda sendo glamourizada e aí, meu amigo, é um festival de traumas e cabeças perturbadas passando por nós. Só a terapia salva.

Beijos

Rodrigo de Lorenzi

19
jul

A lista da pá

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Tem uma autora de quem eu gostava muito quando era bem novinha: Marian Keyes. Não que eu tenha deixado de gostar dela, mas agora me parece que as histórias se arrastam demais – ou posso apenas estar ficando velha e chata. Marian sempre traz temas fortes, como abuso de drogas, aborto, luto, estupro, abandono… Mas todos tratados em histórias que, fora a temática, têm personagens hilárias, bem construídas e com passagens engraçadíssimas.

É o caso da Helen, uma das irmãs Walsh. Vários livros trazem as mulheres dessa família, irlandesas que vivem dramas tocantes e são meio amalucadas. Para resumir, Helen, ao longo dos livros lançados, passa de adolescente linda e pentelha a adulta sagaz. Ela se torna detetive particular e por seu humor peculiar já levou mais de um livro nas costas. Não vou ficar aqui dando spoiler, exceto um: a lista da pá, que aparece no livro “Chá de Sumiço”.

A Helen criou uma lista mental em que ela coloca absolutamente tudo e todos em que ela gostaria de bater com uma pá. Simples assim. Nem que não dê para bater com uma pá literalmente. Desde que li esse livro, obviamente criei a minha lista da pá. Figuram nela: qualquer produto com cheiro de lavanda; o filme “Vende-se esta casa”; atendentes de call center mal-educados ou mal-informados (caos center); pessoas que falam perto demais; as últimas temporadas de The Walking Dead; entregadores do Uber Eats que derrubam sua pizza no chão antes de entregar; parentes que te excluem por opinião política divergente; computador que trava (esse está no topo da lista); batata-frita mole; paralisia facial; macarons; canetas que falham; roupa apertada; fake news; gente que não dá seta no trânsito; pessoas escrotas no geral; chuveiro que não regula; tampas que não abrem facilmente; produtos para canhotos que nunca são práticos; benzetacil; mosquitos; crossfit – e muitas outras coisas que é melhor nem listar pra não gerar muita polêmica.

Agora desafio você a fazer sua própria lista da pá. Garanto que você vai se divertir justo com o que mais detesta.

Luciana Penante

7
mai

Curitiba

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Minha cidade é meu reflexo, inconstante como eu. Tão viva que muitas vezes me entristeço com seu calor exagerado, mas acabo me redimindo quando me presenteia com o rubro final de tarde. Quase sempre serena, lava os piores pecados com o orvalho matinal e com a tênue chuva do entardecer, e eu respiro aliviada, sua inconstância repetida ao longo do tempo, com leves desvios de cores e sons.

Mas naquela manhã ela estava mais negra do que o normal, com sua tempestade pungindo as pessoas acordadas e indiferente a quem tranquilamente vivia o momento embaixo dos lençóis. Acordada prematuramente, não entendia o motivo do caos. Apesar de ser feriado não pude descansar além do normal, e tomei o primeiro ônibus para fazer as compras rotineiras.

Surpreendi-me com a quantidade de pessoas nele, assim como nas ruas e em todo lugar. Nem nos feriados posso descansar – disse a cidade, com seu dia oblíquo avançando por todas as direções. Duas senhoras discutiam o tempo impondo suas ideias, consternadas por não conseguirem com elas desfazer as densas nuvens oponentes.

Pela janela, a todo momento se abriam guarda-chuvas de diversas tonalidades, contrastando com a escuridão. E a cidade, vista de cima, era uma festa de cores, florescendo a todo instante. Tão bela, que nem ela resistiu e sorriu, raiando os primeiros feixes de luz da manhã.

Stephanie D’Ornelas

2
mai

Sem abraço

 

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Li em algum lugar que uma das maiores dores da velhice é a falta do toque físico. Desde então me derramo em abraços demorados nos velhos que encontro pelo caminho.

Às vezes, eles resistem, reagem ao carinho inesperado empertigando o corpo, sorriem amarelo como quem diz “aconteceu alguma coisa?”.

Confesso que tenho medo dessa escassez que chega sem a gente perceber. A cada ano somado devemos perder toneladas de hormônios, e com eles o impulso da aproximação física, o prazer do aconchego.

A solidão também se expressa nesse espaço vazio entre nossos peitos que já não se tocam.

Também não há crianças pulando no colo da gente e mãozinhas que procuram as nossas apenas para permanecer, só pela segurança do contato.

A velhice apronta cada uma!

alanis

16
abr

Ai, que saudades da minha gata

No começo de 2019 eu adotei uma gata, depois de meses, dias e horas pensando se essa seria uma decisão correta. Afinal, passo o dia todo fora de casa, já tenho um porquinho-da-índia gordo e maravilhoso (o Biscoito), e minha rotina é um pouco maluca. Enquanto eu refletia, o destino bateu à minha porta, quando uma mamãe gata e seus filhotes foram abandonados em um terreno baldio (ah, os humanos…). Eu não podia ficar com a família toda, mas decidi que esse era um sinal de que eu deveria entrar para o mundo dos gateiros. E assim, em janeiro, adotei minha pequena Alanis (em homenagem à cantora Alanis Morissette, minha cantora favorita).

Já são três meses de alegria, arranhões (muitos), ronronados, lambidas e mordidas, além de um carinho quentinho de manhã, quando Alanis vem na minha cama para se aninhar inteira do meu lado (ou na minha cara, ou no meu pescoço) para ronronar e fazer uma carinha de sono. O porquinho não ficou lá muito feliz, mas está se acostumando.

Nuca pensei que poderia amar tanto um serzinho tão pequeno e amoroso. É verdade que tem dias em que ela me enlouquece, arranha minha mão inteira até parecer que sofri um acidente grave, depois tenta escalar minha perna fincando as unhas mais afiadas do que as melhores facas do mundo.

Mas o negócio é que eu passo o dia todo com saudades da minha gata. Fico pensando nela dormindo na caixinha, que a minha tia fez especialmente para Alanis, fico pensando nela me esperando voltar do trabalho, penso nela se escondendo atrás das coisas só para pular e me assustar quando eu passo.

Alanis me espera todo dia atrás da porta da sala e sabe quando eu chego só de ouvir o portão do prédio. Ela começa a miar, se aninha toda nas minhas pernas assim que entro em casa e me segue em todos os cantos possíveis do apartamento. Ela é a gatinha mais maravilhosa desse meu mundo. Ai, que saudades da minha gata.

Rodrigo

 

26
fev

As mudanças e a memória afetiva

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Saí de casa aos 28 anos para morar sozinho. Era um apartamento minúsculo, no mesmo bairro onde já morava, com sala, cozinha, quarto e banheiro, tudo no mesmo ambiente. Era minha mansão, claro. Foram dois anos de aprendizado. Virei amigo da solidão e jamais me senti solitário. Aprendi a apreciar minha companhia. Não conheço o que é tédio.

Mas depois de dois anos, resolvi me mudar para um apartamento maior, agora dividindo com outra pessoa, em outro bairro. Novos contextos e novas referências. Novo chão, velha constelação.

A parte burocrática da mudança é um troço muito insuportável de chato. Fretes, instalação de armário, chuveiro que queima, vistoria de apartamento, instalação de internet, bagunça, arrumação, inventário de coisa que eu nem sabia que tinha. Mas ao mesmo tempo em que tudo está uma zona completa, tudo também está lindo.

Eu me mudei para um bairro em que cada lugar ativa algo na minha memória afetiva. Foi lá onde boa parte da minha família viveu por muitos anos. A cada pedacinho do bairro, eu lembro do cheiro do café da minha bisavó, dos passeios com a minha avó, da alegria de pegar um ônibus quando criança, do apartamento onde minha tia viveu, do cheiro do chocolate enquanto minha tia preparava ovos de Páscoa, da sensação de ter ido ao cinema pela primeira vez, das brincadeiras com a minha prima no pátio de casa, do barulho da máquina de costura da minha bisavó.

É estranho, até meio mágico, o poder da memória. Esses dias entrei no apartamento e algum cheiro me transportou para uma época que eu nem lembrava que ainda existia dentro de mim. Quando fui dormir a primeira noite no apê novo, o barulho incessante de carros passando na rua me fez adormecer rapidamente, porque era o mesmo barulho de quando eu visitava minha bisa. A sensação é de pertencimento. Que coisa doida! Estou em casa.

12
fev

Não estamos no controle

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Ano passado fui surpreendida por uma paralisia facial periférica – a tal da “Paralisia de Bell”. Já tinha ouvido falar vagamente da dita cuja, mas não tinha ideia da batalha que eu iria enfrentar. Fiz um vídeo rindo, o dia era 15 de julho. Achei que em menos de um mês estaria boa. Pois bem: estou entre os 15% que levam bem mais tempo para recuperar as funções faciais. Se você ainda não deu um Google ou não conhece a doença, é aquela em que a gente fica com a cara de quem teve um AVC – metade do rosto parece que derreteu. É horrível, dá vergonha de sair na rua e uma sensação irritante de impotência: “perdi o controle do meu próprio rosto”, pensei.

Será que eu iria ficar daquele jeito pra sempre? Os neurologistas pediam paciência. Muitos médicos me disseram que tudo o que eu podia fazer era fisioterapia e esperar. Continuo fazendo isso. Embora a sobrancelha ainda não se mexa, o sorriso melhorou bastante e quando estou quieta ninguém percebe por tudo o que passei nos últimos sete meses. Eu até já consigo piscar – sim, porque fiquei meses sem conseguir fechar 100% do olho esquerdo. Mas não estou te contando isso tudo para você ficar com pena ou assustado, e sim para dizer algo que aprendi com a melhor médica que encontrei nessa caminhada, a Dr.ª Aline Barreto. Ela é uma baita acupunturista e, pra mim, também uma excelente terapeuta: ela diz que a gente não tem ideia do quanto não está no controle de nada do que acontece em nossa vida. Se até o nosso corpo pode se rebelar contra nós, a despeito de nossos planos, imagina tudo o que está ao nosso redor. Não é que não sabemos o dia de amanhã. Não sabemos o minuto seguinte.

Tive vontade de compartilhar esse “insight” porque acredito que ele facilita viver e aceitar o que vier pela frente – não passivamente, mas sim enfrentar nossas lutas e entender que não estamos no controle de nada, e que coisas ruins, infelizmente, vão acontecer. Boas também. Ótimas. Algumas incríveis. E outras nem tanto. O importante é aprender, como diz a sábia Dr.ª Aline, a lidar com as dificuldades e ser feliz apesar delas. Não estou dizendo pra você deixar de planejar o futuro, seja o jantar de hoje, ou a viagem no fim do ano, veja bem. Estou te alertando que em alguns segundos tudo pode mudar. E aceitar essa falta de controle pode ser a chave para viver melhor o agora. Então, apenas seja feliz e “descontrole-se”.

Luciana

18
ago

Uma pilha de livros

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Ando com um hábito um pouco feio, eu confesso. Toda vez que entro em uma livraria ou sebo, acabo saindo com uma obra na mão. Muito bonito. O problema é que tenho uma pilha de livros lá em casa me olhando com uma cara julgadora. Me leia, me leia, me leia. E aí eu compro mais um, porque está tão barato, eu sempre quis ler, esse tem capa dura!

Veja bem, não é que eu não esteja lendo nenhum livro e só comprando porque acho uma coisa cult. Acabei de ler a nova história do Harry Potter (que é bem ruim, por sinal). Estou lendo “It – A Coisa”, do Stephen King (que tem mais de mil páginas), mas aqueles outros livros ficam lá, me encarando com cara feia.

O negócio é que não adianta ficar comprando livros e mais livros se você não vai lê-los. É até egoísta. Você priva outros leitores de terem aquele exemplar e ainda deixa o coitado passando fome.

Por isso, agora decidi. Vou terminar a história do palhaço assustador que mata crianças (não recomendo ler “It” de madrugada, embora eu leia) e depois falo com meus outros livros, que esperam ansiosos o virar das páginas.

Um beijo

Rodrigo