Arquivos da categoria: Comportamento

7
mai

Curitiba

adult-1867665_1920

Minha cidade é meu reflexo, inconstante como eu. Tão viva que muitas vezes me entristeço com seu calor exagerado, mas acabo me redimindo quando me presenteia com o rubro final de tarde. Quase sempre serena, lava os piores pecados com o orvalho matinal e com a tênue chuva do entardecer, e eu respiro aliviada, sua inconstância repetida ao longo do tempo, com leves desvios de cores e sons.

Mas naquela manhã ela estava mais negra do que o normal, com sua tempestade pungindo as pessoas acordadas e indiferente a quem tranquilamente vivia o momento embaixo dos lençóis. Acordada prematuramente, não entendia o motivo do caos. Apesar de ser feriado não pude descansar além do normal, e tomei o primeiro ônibus para fazer as compras rotineiras.

Surpreendi-me com a quantidade de pessoas nele, assim como nas ruas e em todo lugar. Nem nos feriados posso descansar – disse a cidade, com seu dia oblíquo avançando por todas as direções. Duas senhoras discutiam o tempo impondo suas ideias, consternadas por não conseguirem com elas desfazer as densas nuvens oponentes.

Pela janela, a todo momento se abriam guarda-chuvas de diversas tonalidades, contrastando com a escuridão. E a cidade, vista de cima, era uma festa de cores, florescendo a todo instante. Tão bela, que nem ela resistiu e sorriu, raiando os primeiros feixes de luz da manhã.

Stephanie D’Ornelas

2
mai

Sem abraço

 

sem-abraço-1

Li em algum lugar que uma das maiores dores da velhice é a falta do toque físico. Desde então me derramo em abraços demorados nos velhos que encontro pelo caminho.

Às vezes, eles resistem, reagem ao carinho inesperado empertigando o corpo, sorriem amarelo como quem diz “aconteceu alguma coisa?”.

Confesso que tenho medo dessa escassez que chega sem a gente perceber. A cada ano somado devemos perder toneladas de hormônios, e com eles o impulso da aproximação física, o prazer do aconchego.

A solidão também se expressa nesse espaço vazio entre nossos peitos que já não se tocam.

Também não há crianças pulando no colo da gente e mãozinhas que procuram as nossas apenas para permanecer, só pela segurança do contato.

A velhice apronta cada uma!

alanis

16
abr

Ai, que saudades da minha gata

No começo de 2019 eu adotei uma gata, depois de meses, dias e horas pensando se essa seria uma decisão correta. Afinal, passo o dia todo fora de casa, já tenho um porquinho-da-índia gordo e maravilhoso (o Biscoito), e minha rotina é um pouco maluca. Enquanto eu refletia, o destino bateu à minha porta, quando uma mamãe gata e seus filhotes foram abandonados em um terreno baldio (ah, os humanos…). Eu não podia ficar com a família toda, mas decidi que esse era um sinal de que eu deveria entrar para o mundo dos gateiros. E assim, em janeiro, adotei minha pequena Alanis (em homenagem à cantora Alanis Morissette, minha cantora favorita).

Já são três meses de alegria, arranhões (muitos), ronronados, lambidas e mordidas, além de um carinho quentinho de manhã, quando Alanis vem na minha cama para se aninhar inteira do meu lado (ou na minha cara, ou no meu pescoço) para ronronar e fazer uma carinha de sono. O porquinho não ficou lá muito feliz, mas está se acostumando.

Nuca pensei que poderia amar tanto um serzinho tão pequeno e amoroso. É verdade que tem dias em que ela me enlouquece, arranha minha mão inteira até parecer que sofri um acidente grave, depois tenta escalar minha perna fincando as unhas mais afiadas do que as melhores facas do mundo.

Mas o negócio é que eu passo o dia todo com saudades da minha gata. Fico pensando nela dormindo na caixinha, que a minha tia fez especialmente para Alanis, fico pensando nela me esperando voltar do trabalho, penso nela se escondendo atrás das coisas só para pular e me assustar quando eu passo.

Alanis me espera todo dia atrás da porta da sala e sabe quando eu chego só de ouvir o portão do prédio. Ela começa a miar, se aninha toda nas minhas pernas assim que entro em casa e me segue em todos os cantos possíveis do apartamento. Ela é a gatinha mais maravilhosa desse meu mundo. Ai, que saudades da minha gata.

Rodrigo

 

26
fev

As mudanças e a memória afetiva

Memória-afetiva

Saí de casa aos 28 anos para morar sozinho. Era um apartamento minúsculo, no mesmo bairro onde já morava, com sala, cozinha, quarto e banheiro, tudo no mesmo ambiente. Era minha mansão, claro. Foram dois anos de aprendizado. Virei amigo da solidão e jamais me senti solitário. Aprendi a apreciar minha companhia. Não conheço o que é tédio.

Mas depois de dois anos, resolvi me mudar para um apartamento maior, agora dividindo com outra pessoa, em outro bairro. Novos contextos e novas referências. Novo chão, velha constelação.

A parte burocrática da mudança é um troço muito insuportável de chato. Fretes, instalação de armário, chuveiro que queima, vistoria de apartamento, instalação de internet, bagunça, arrumação, inventário de coisa que eu nem sabia que tinha. Mas ao mesmo tempo em que tudo está uma zona completa, tudo também está lindo.

Eu me mudei para um bairro em que cada lugar ativa algo na minha memória afetiva. Foi lá onde boa parte da minha família viveu por muitos anos. A cada pedacinho do bairro, eu lembro do cheiro do café da minha bisavó, dos passeios com a minha avó, da alegria de pegar um ônibus quando criança, do apartamento onde minha tia viveu, do cheiro do chocolate enquanto minha tia preparava ovos de Páscoa, da sensação de ter ido ao cinema pela primeira vez, das brincadeiras com a minha prima no pátio de casa, do barulho da máquina de costura da minha bisavó.

É estranho, até meio mágico, o poder da memória. Esses dias entrei no apartamento e algum cheiro me transportou para uma época que eu nem lembrava que ainda existia dentro de mim. Quando fui dormir a primeira noite no apê novo, o barulho incessante de carros passando na rua me fez adormecer rapidamente, porque era o mesmo barulho de quando eu visitava minha bisa. A sensação é de pertencimento. Que coisa doida! Estou em casa.

12
fev

Não estamos no controle

game

Ano passado fui surpreendida por uma paralisia facial periférica – a tal da “Paralisia de Bell”. Já tinha ouvido falar vagamente da dita cuja, mas não tinha ideia da batalha que eu iria enfrentar. Fiz um vídeo rindo, o dia era 15 de julho. Achei que em menos de um mês estaria boa. Pois bem: estou entre os 15% que levam bem mais tempo para recuperar as funções faciais. Se você ainda não deu um Google ou não conhece a doença, é aquela em que a gente fica com a cara de quem teve um AVC – metade do rosto parece que derreteu. É horrível, dá vergonha de sair na rua e uma sensação irritante de impotência: “perdi o controle do meu próprio rosto”, pensei.

Será que eu iria ficar daquele jeito pra sempre? Os neurologistas pediam paciência. Muitos médicos me disseram que tudo o que eu podia fazer era fisioterapia e esperar. Continuo fazendo isso. Embora a sobrancelha ainda não se mexa, o sorriso melhorou bastante e quando estou quieta ninguém percebe por tudo o que passei nos últimos sete meses. Eu até já consigo piscar – sim, porque fiquei meses sem conseguir fechar 100% do olho esquerdo. Mas não estou te contando isso tudo para você ficar com pena ou assustado, e sim para dizer algo que aprendi com a melhor médica que encontrei nessa caminhada, a Dr.ª Aline Barreto. Ela é uma baita acupunturista e, pra mim, também uma excelente terapeuta: ela diz que a gente não tem ideia do quanto não está no controle de nada do que acontece em nossa vida. Se até o nosso corpo pode se rebelar contra nós, a despeito de nossos planos, imagina tudo o que está ao nosso redor. Não é que não sabemos o dia de amanhã. Não sabemos o minuto seguinte.

Tive vontade de compartilhar esse “insight” porque acredito que ele facilita viver e aceitar o que vier pela frente – não passivamente, mas sim enfrentar nossas lutas e entender que não estamos no controle de nada, e que coisas ruins, infelizmente, vão acontecer. Boas também. Ótimas. Algumas incríveis. E outras nem tanto. O importante é aprender, como diz a sábia Dr.ª Aline, a lidar com as dificuldades e ser feliz apesar delas. Não estou dizendo pra você deixar de planejar o futuro, seja o jantar de hoje, ou a viagem no fim do ano, veja bem. Estou te alertando que em alguns segundos tudo pode mudar. E aceitar essa falta de controle pode ser a chave para viver melhor o agora. Então, apenas seja feliz e “descontrole-se”.

Luciana

18
ago

Uma pilha de livros

pilha_livros

Ando com um hábito um pouco feio, eu confesso. Toda vez que entro em uma livraria ou sebo, acabo saindo com uma obra na mão. Muito bonito. O problema é que tenho uma pilha de livros lá em casa me olhando com uma cara julgadora. Me leia, me leia, me leia. E aí eu compro mais um, porque está tão barato, eu sempre quis ler, esse tem capa dura!

Veja bem, não é que eu não esteja lendo nenhum livro e só comprando porque acho uma coisa cult. Acabei de ler a nova história do Harry Potter (que é bem ruim, por sinal). Estou lendo “It – A Coisa”, do Stephen King (que tem mais de mil páginas), mas aqueles outros livros ficam lá, me encarando com cara feia.

O negócio é que não adianta ficar comprando livros e mais livros se você não vai lê-los. É até egoísta. Você priva outros leitores de terem aquele exemplar e ainda deixa o coitado passando fome.

Por isso, agora decidi. Vou terminar a história do palhaço assustador que mata crianças (não recomendo ler “It” de madrugada, embora eu leia) e depois falo com meus outros livros, que esperam ansiosos o virar das páginas.

Um beijo

Rodrigo

19
mai

De três em três horas

Há alguns dias fui a uma consulta com a nutricionista. Como faço exercícios físicos, gostaria de saber se eu poderia tomar esses suplementos nutricionais com zilhões de proteínas, de forma saudável e controlada. A resposta foi sim, mas com uma condição: suplemento somente por uns dois meses, depois eu devo buscar os nutrientes nos alimentos de verdade. Que gostoso, pensei. Mas aí veio a dieta. É necessário comer de três em três horas.  Comer-a-cada-3-horas-funciona

Parece uma coisa fácil, mas não é. Estamos tão habituados a comer apenas quando sentimos fome que acabamos demorando umas quatro, cinco horas entre uma refeição e outra. E não pense que é para comer essas guloseimas maravilhosas, não. Bolachas? Jamais! Chocolate? Não, não! Apenas fruta? Não adianta nada! O ideal, entre uma refeição e outra, é comer algumas castanhas, nozes, frutas secas, amendoins, amêndoas, todos produtos bastante acessíveis que custam uns R$ 80 cada grama. Não está sendo fácil. E a médica ainda me mandou comer batata doce. Quem foi que teve a ideia de criar uma batata que é doce?

Embora seja uma dificuldade imensa lembrar que preciso comer de três em três horas – não vale bolachinha recheada, hein – sou um moço muito disciplinado. Compro castanhas, iogurte e biscoitos saudáveis, tudo para que minha nutricionista tenha orgulho de mim. Eu até forço na batata doce.

Mas agora já são quase 18h e eu mereço uma Negresco bem gordinha.

Rodrigo de Lorenzi

7
abr

A obesidade infantil e o papel dos pais

obesidade

Dia desses, ao ficar por umas três horas na sala de espera de um pronto atendimento infantil, me surpreendeu a grande quantidade de crianças obesas que ali estavam. Fiquei me perguntando se as famílias não percebem o problema ou se negligenciam mesmo. Um bebê de um ano gordinho é a coisa mais fofa do mundo, vamos combinar né? Mas sabemos que essa fofura toda pode se tornar bastante danosa à saúde ao longo do tempo.

Fico arrepiada quando vejo uma mãe colocar refrigerante na mamadeira do filho, ou então quando ela lhe dá “apenas” um golinho em uma festa porque a criança pediu. É claro que eles conhecerão todas as guloseimas em algum momento da vida, mas acredito que quanto mais pudermos retardar esse contato melhor.

Gostei bastante de uma campanha publicitária contra a obesidade infantil que vi nos mobiliários urbanos de Curitiba recentemente. A campanha foi feita com foto de crianças acima do peso que pediam aos pais que impusessem limites a elas. Que dissessem não, mesmo que os filhos insistissem ou chorassem.

Acho que esse é o caminho: limites. Às vezes deixarmos de dizer não para evitar constrangimentos ou chateações. Mas precisamos ter a consciência de nossos filhos precisam deles e de que esse é o nosso papel. Orientar, corrigir, amar e, acima de tudo, impor limites!

Um beijo!

Aline Cambuy

31
mar

Sobre gêneros e empoderamento

solidariedade

Hoje de manhã assisti a uma série de palestras sobre finanças (empresariais, pessoais, investimentos, cenário macroeconômico, dólar), durante um evento da Rede Mulher Empreendedora (www.facebook.com/RedeMulherEmpreendedora/). Na plateia e no púlpito, o mais legítimo exemplo do empoderamento feminino.

Achei tudo genial. Aprendi novos termos, ampliei minha cadeia de networking, ouvi histórias fantásticas, saí renovada.

Mesmo sem ser uma conhecedora do debate sobre gêneros, ficou claro para mim no evento que a questão ali era latente. E aí me lembrei do material que recebi dias atrás da minha comadre Alessandra Roseira, de Berlim: o primeiro longa-metragem intersexual do cinema. A Ale teve acesso ao link abaixo depois de entrar em contato com a diretora do filme, em 2011. Obrigada pelo envio, comadre. E que todos possam assistir e refletir.

https://vimeo.com/68928530

Beijos,

Karin Villatore

 

24
mar

Moda e blogs

iris3Eu sempre gostei muito de moda, principalmente de ler sobre, pois o consumo mesmo nunca esteve ao meu alcance.

Nos anos 80, quando não havia internet, minha família assinava e comprava muitas revistas, entre elas as clássicas Moda& Moldes e Manequim, que eu devorava página por página. Acho que foi aí que surgiu a minha adoração.

Mais velha, já com a internet, descobri os blogs de moda. No início eu era compulsiva, acessava milhares ao dia, adorava ver o que as meninas usavam e recomendavam, até gostava de ver os “looks do dia”. Mas sempre tive uma postura crítica, pois moda não é só ir ao shopping comprar, moda é comportamento, é informação, é história.

Nessa época, lá em 2009, as blogueiras viraram estrelas. Eram convidadas para a primeira fila de desfiles em Paris, participavam de coleções, tornaram-se digital influencers.

E nisso começaram as críticas, já que carregar marcas famosas e desfilar as últimas tendências não é, nem nunca foi, sinônimo de bom gosto ou de bom senso para a moda. Uma das críticas mais frequentes também refletia sobre os jornalistas e os blogueiros, que não são a mesma coisa.

Com o tempo fui perdendo o interesse, pois a falta de conteúdo me incomodava muito, além do estímulo desenfreado ao consumo e a falta de realidade. No meu mundo, e no da maioria das pessoas, não está na lista de desejos uma bolsa Chanel ou um sapato Louboutin, que segundo a maioria das blogueiras, são itens “imprescindíveis”.

Mas depois de tanta rejeição aos blogs vejo um movimento interessante que valoriza o reaproveitamento, os “armários cápsulas” (que estimula ter poucas e boas peças) e, principalmente, de consumo consciente.  Afinal, moda é muito mais do que uma roupa bonita.

Se você gosta ou quer saber mais, fiz uma lista de documentários bem legais sobre moda:

  • Advenced Style: mostra que moda não tem idade e é comportamento também.
  • Íris: sobre a linda Iris Apfel, um ícone da moda aos 94 anos.
  • The True Cost: o documentário mostra o impacto da moda em todo o planeta, seja financeiro, ambiental ou comportamental.

Todos estão na Netflix.

Um beijo,
Maria Emilia