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9
set

Eu não disse não

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Tenho dificuldades para dizer não em situações que me desafiam. Isso não é uma qualidade, frequentemente deu errado e algumas vezes consegui me safar com poucos danos.

Podia ter me dado bem mal quando apliquei uma benzetacil no meu primeiro chefe. As variáveis eram assustadoras, mas a ignorância dá coragem. Então, sem nunca ter treinado sequer em uma maçã, misturei os birinaites da injeção mais doída do planeta e mandei brasa no braço da pessoa – que ainda agradeceu!

Nem vou desfilar aqui os muitos casos de minha insensatez – a maioria deles não merece vir a público por que ainda tenho alguma reputação a salvar.

Mas foi por sofrer dessa incontinência que neste ano corri o maior dos riscos para uma pessoa de vidinha mediana e medíocre como a minha. Fui parar em cima de um palco, cantando, dançando e representando. Quer dizer, tentando fazer tudo isso.

Claro está que não sou a única pessoa sem juízo na cidade. Eu era uma em um grupo de 29 amadores. Nossa sorte e fortuna residem no profissionalismo do maestro que nos deu essa missão.

Ele apostou no grupo e confiou que faríamos – não sem acionar o chicotinho, é claro, que nada vem de graça nessa vida; muito menos encenar uma versão da “Ópera do Malandro” num teatro lotado por 650 pessoas.

Parafraseio um dos antológicos versos do Chico Buarque para dizer como me sinto em relação a essa aventura: na vida, ou nos palcos da vida, a gente vai apanhar e sangrar e suar. E vai ser maravilhoso!

 

Marisa Valério

30
ago

Vai fazer faculdade de quê?

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Quando era adolescente me deparei com aquela fase do “vai fazer faculdade de quê?”. Eu, no auge dos meus 16 anos, adorava escrever. Tinha até um Tumblr. Porém, os anos foram passando, os vestibulares se acumulando e os cursos que eu decidi não fazer, também. Desde Relações Públicas, passando por Psicologia e Cinema, até chegar nos cursinhos preparatórios para concurso… Fiz de tudo. Mas cheguei num ponto em que já não queria mais fazer um curso superior.

Mais anos foram passando. Trabalhei com várias coisas e em vários lugares, só para voltar ao ponto de partida: o Jornalismo. Antes de todos os cursos, vestibulares e faculdades que decidi fazer, a ideia era ser jornalista. “Não esses de redação”, eu dizia, por medo de achar muito chato. Só queria escrever. Mas, além disso, queria que as pessoas “me lessem”.

Hoje, depois de quase quatro anos na faculdade de Jornalismo, estou em processo de finalização de um livro-reportagem e da concretização desse sonho de “me lerem”. Era o que eu sempre quis, não era? Mas, ansioso que sempre fui, já comecei a imaginar, pensar e conjecturar sobre como será a vida pós-acadêmica. Como sempre também adorei começar projetos novos (terminar já são outros quinhentos), já organizei todo o meu tempo para fazer cursos, outras faculdades, pós-graduações, mestrados e doutorados, até o longínquo tempo da velhice. Besteira? Talvez.

Eu sempre vivi a vida, como gostava de dizer, “sem planejar”. Fazia o que dava na telha, quando dava na telha e com quem dava na telha. Por isso comecei uma faculdade só aos 24 anos, por isso tenho tantos cursos e formações inacabados e projetos começados não terminados. Não vou aqui colocar o velho clichê de que “tudo tem o seu tempo”, e que “nos forçam a decidir nossas carreiras muito cedo”. Todos sabem disso. O que estou querendo dizer é que um pouco de planejamento sempre cai bem. Um pouco não, quiçá bastante.

O meu livro-reportagem é um compilado de relatos-testemunhos de pessoas em recuperação da doença da adicção, ou dependência química se preferir. Várias delas, além de acompanhamento psicológico ou psiquiátrico, frequentam assiduamente grupos de mútua ajuda como Alcoólicos Anônimos e Narcóticos Anônimos. Um dos dizeres comuns nesses grupos é o “só por hoje”, que significa nada menos do que viver um dia de cada vez. Se você pensar bem, é extremamente libertador viver sem se sentir amargurado pelo passado e ansioso pelo amanhã, só no momento presente. Mas… e o planejamento, onde fica? E os sonhos? Será que não posso mais sonhar se escolher viver assim? Que vida horrível!

Calma! Eu também tive essa dúvida e, digo com facilidade, que podemos e devemos ter planos. O “só por hoje” é ótimo para determinadas situações em que ficamos pensando muito à frente ou nos perdemos no passado. Porém, usar essa “técnica” ou filosofia para tudo é extremamente prejudicial para o longo prazo necessário para a vida. Qual é a solução então? Fui perguntar, óbvio, para aqueles membros que já estão em recuperação há mais tempo: “Como você faz para planejar a sua vida e ainda sim viver essa filosofia?”.

A resposta me chocou. Não tinha imaginado que uma coisa não precisa necessariamente anular a outra. Viver no momento presente e fazer o que me cabe no dia de hoje para que meus planos futuros possam se concretizar é a chave do sucesso. Quem disse que uma pessoa precisa ser uma coisa só, ainda mais para o resto da vida? Eu não. Prefiro ser, como diria Raul Seixas, essa metamorfose ambulante.

Lucas Jensen

22
ago

Desenhe pelo desenho

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Minha relação com as letras sempre foi próxima. Na infância amava ler gibis, depois passei para as revistas e livros. Redação era minha matéria preferida na escola e, como decidi ser jornalista, continuei usando as palavras para expressar minhas ideias do cotidiano ao ganha-pão. Quando eu era criança também gostava de desenhar, e até achava que tinha potencial para isso, mas com o passar dos anos deixei de me dedicar à arte da representação gráfica. Foi quando comecei a fazer a faculdade de Design Gráfico, no início deste ano, que o desenho renasceu na minha vida.

Cheguei com travas — ainda não totalmente desbloqueadas — por pensar que talvez minha habilidade como desenhista não fosse suficiente para o curso. Eu não estava sozinha. São muitos os estudantes que iniciam a faculdade nesta área sem confiar plenamente em seu potencial para o desenho.

Quando somos crianças, amamos criar universos com lápis de cor, giz de cera, canetinhas e tudo o que produzir manchas coloridas num papel (ou mesmo numa parede que estiver dando sopa). Mas, por algum motivo, grande parte de nós cresce acompanhado das neuroses que nos sussurram de que não sabemos desenhar ou que somos pouco criativos.

Dias atrás vi uma postagem em uma rede social de um ilustrador que admiro muito dizendo que ele tinha se tornado desenhista porque foi uma criança que nunca disse a si mesmo que não sabia desenhar. São muitos os relatos de crianças que são corrigidas por pais e professores por colorirem uma imagem com as “cores erradas”, por que, teoricamente, as tonalidades escolhidas não representam a realidade.

No século passado, o icônico cachimbo do surrealista René Magritte dava a dica:

“ceci n’est pas une pipe” ou, no português, “isso não é um cachimbo”. As imagens não são a realidade em si. Mesmo assim, a sociedade continua podando o modo como as crianças desenham, até que todas se encaixem em um padrão e que muitas cresçam achando que o desenho não é para elas.

Outro grande obstáculo é acreditar que o desenho só deve ser feito para alcançar um fim específico. Colocamos tanta expectativa no resultado final que o processo se torna muito intelectual e pouco prático. Tenho aprendido a simplesmente desenhar por desenhar. Aproveitar o processo. Em uma aula da faculdade, uma aluna perguntou ao professor se um trabalho de ilustração que faríamos em sala seria apenas um esboço ou se já deveríamos nos preparar para entregar no mesmo dia. Ele explicou que, para ele, tudo era o resultado final: desde os nossos primeiros traços.

Se você quer começar a desenhar, não pense muito: apenas desenhe. E se você não estiver satisfeito com o resultado, continue desenhando. Todos os grandes desenhistas têm anos de prática e dedicação. Livrar-se das amarras tem sido, para mim, um processo maravilhoso de redescoberta de mim mesma. Afinal, desenhar apenas pelo ato de desenhar é uma forma de expressão tão forte quanto as palavras.

Stephanie D’Ornelas

15
ago

As saudades e ciladas da nostalgia

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O cinema, a TV, a música e até mesmo a política têm investido bastante em produções e estratégias nostálgicas nos últimos anos, em especial desde 2015. É perceptível no aumento de remakes, revivals, turnês saudosistas e candidatos que tentam disfarçar a naftalina, tudo ao gosto do público que, depois de praticamente esgotar as opções de consumo “oitentista”, agora volta sua nostalgia à década de 1990.

Vamos aos exemplos: a série “Stranger Things”, a turnê de Sandy & Júnior, a novela global “Verão 90”, o novo “O Rei Leão”, a volta do especial “Amigos” sertanejos, e até o “Xou da Xuxa” estão entre nós às vésperas da chegada de 2020 – com força total e bilheterias esgotadas. Se, por um lado, é bacana curtir a saudade das décadas passadas e rever/revisitar ídolos e sucessos, é preciso cuidado para não cair nas ciladas da nostalgia excessiva.

Quem assistiu “Meia Noite em Paris”, de Woody Allen, sabe bem o que estou falando: um escritor infeliz, em crise de identidade em sua realidade dos anos 2010, magicamente se vê transportado para a Paris da década de 1920, repleta de artistas, boêmia e efervescência cultural. O autor não quer mais sair de lá, tamanha sua realização.

Eis que, no desenrolar da narrativa (sem dar spoilers), ele se dá conta que os parisienses daquela época consideravam a Belle Époque um período histórico muito superior, ao passo que aqueles artistas da virada do século 19 comentam que a Renascença, sim, devia ser excelente… Percebem a ironia?

O ser humano tem a estranha mania de se apegar ao passado e, mesmo que no fundo saiba que enfrentou muitos perrengues, acaba por idealizar apenas os bons momentos vividos: a infância (sua ou dos filhos), o antigo emprego, o governo daquele político de sua preferência, a música da adolescência e assim por diante.

Quer prova maior do que a década de 1980, marcada pela abertura democrática no Brasil, pelos últimos anos da Guerra Fria e pelas dificuldades da hiperinflação que a consideram a “década perdida”, e ainda assim cultuada como tempos gloriosos pela cultura pop?

É bom rememorar as coisas boas do passado, mas nunca se esqueça de (bem) viver o presente, tornando o momento atual uma boa lembrança em alguns anos.

André Nunes

8
ago

Os 4 livros de julho

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Aqui estou eu novamente para falar sobre últimos livros lidos. Eu sei, eu sei, sou muito monotemático, mas tem sempre alguém querendo dicas de livros (e eu sempre quero falar sobre isso). Então aqui vai.

  1. Não tive nenhum prazer em conhecê-los
    Autor: Evandro Affonso Ferreira

Bem, o Evandro Affonso Ferreira é um autor conceituadíssimo, vencedor de APCA e Jabuti. Portando, é meio que “alta literatura”, né? Não gosto muito dessa denominação, mas enfim. “Não tive nenhum prazer em conhecê-lo” é um romance, mas parece uma coletânea de frases, poemas e reflexões sobre a vida, a velhice e tudo o que há no meio. O autor é mestre em brincar com as palavras e em explorar nosso idioma de todas as formas. São frases nada comuns, então tudo soa original, até desafiador. Foi uma experiência gratificante. Em alguns momentos, porém, algo me soava pretensioso demais. De qualquer forma, são ótimas reflexões sobre esse mistério que é envelhecer, sem jamais cair no senso comum.

  1. Hibisco Roxo
    Autora: Chimamanda Ngozi Adichie

A adolescente Kambili mostra como a religiosidade extremamente “branca” e católica de seu pai, Eugene, famoso industrial nigeriano, inferniza e destrói lentamente a vida de toda a família.

Impressionante como esse livro é opressivo do início ao fim. Isso não é algo ruim, mas essencial para nos colocarmos um pouquinho na pele dos personagens. Ao mesmo tempo em que ‘Hibisco Roxo’ parece sufocar o leitor, quando a obra te liberta parece que você volta a respirar aliviado. Incrível.

3. O Conto da Aia
Autora: Margaret Atwood

A história acompanha a vida de Offred, uma criada na casa do líder da República de Gilead. Esta é uma sociedade totalitária onde a alfabetização foi proibida para mulheres. Ela surgiu com a catástrofe ambiental e com o avanço da baixa natalidade. Tendo como base o fundamentalismo religioso, esta sociedade trata as mulheres como propriedades do estado. Offred é uma das últimas mulheres férteis, o que a leva ser utilizada como escrava sexual com o objetivo de ajudar a repopular o planeta devastado.

Angustiante e absurdamente atual (parece romance de 2019). Infelizmente vi a série antes de ler, o que diminuiu consideravelmente o impacto. Mesmo assim, excelente.

  1. My Year of Rest and Relaxation

Autora: Otessa Moshfech

A protagonista desse livro não tem muito do que reclamar: é linda, herdeira e mora bem. Mas ela está cansada, muito cansada. Ela quer dormir por um ano. Hibernar. Se desligar do mundo todo, das pessoas, dos problemas banais. E é isso que ela faz. Planeja dormir por um ano e acordar só para fazer coisas básicas, para depois renascer uma nova pessoa.

Eu me identifiquei mais do que eu gostaria com a protagonista. A vida é cansativa e, às vezes, dá vontade de dormir por uma semana inteira. Imagina que delícia. Sem WhatsApp, sem Facebook, sem notícias desse governo maldito, sem as banalidades tão exaustivas do dia a dia. Hibernar até que a gente se sinta descansado e possa recomeçar, olhar o mundo de outra forma.

Rodrigo de Lorenzi

 

30
jul

Cozinhe com afeto

 

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Cozinhar é uma terapia, não tenho dúvidas. Mas embora eu saiba fazer o básico na cozinha, não me considero uma pessoa criativa capaz de inovar em um almoço ou jantar do dia a dia. Se preciso passar no açougue para comprar uma carne só consigo pensar em peito de frango e carne moída. Muitas vezes ainda prefiro fazer ovos com ervilha, abobrinha ou apenas cozidos mesmo. Sou prática e gosto de fazer comida de uma panela só. Macarrão com molho e arroz de forno estão entre as minhas especialidades. E, se puder escolher entre cozinhar e lavar a louça, sempre ficarei com a louça.

Mas o cenário muda completamente quando o assunto é sobremesa. Ah, como eu amo as sobremesas. Sou capaz de inventar um delicioso doce com poucos ingredientes e sem receita. Sempre que me perguntam o que fiz para um bolo ficar tão fofinho, bonito e apetitoso não tenho resposta. Não sou capaz de saber nem ao menos quantas xícaras de farinha usei para fazer a massa. Faço sem medidas mesmo, customizo as receitas da internet, e no final normalmente dá certo.

Quando eu era criança, minha avó deixava ajudá-la na cozinha. Foi ela quem me ensinou a fazer sozinha meu primeiro bolo. Ela tinha um caderno de receitas manuscritas com recortes de imagens de jornais e embalagens. Um capricho só. E são essas memórias que me inspiram.

Acho que o principal segredo é cozinhar com afeto. Fazer aquilo que gosta e, de preferência e se possível, apenas quando tem vontade. Melhor ainda se for para quem você gosta. Quer coisa melhor do que a alegria de uma criança quando uma nega maluca sai do forno?

Aline Cambuy

19
jul

A lista da pá

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Tem uma autora de quem eu gostava muito quando era bem novinha: Marian Keyes. Não que eu tenha deixado de gostar dela, mas agora me parece que as histórias se arrastam demais – ou posso apenas estar ficando velha e chata. Marian sempre traz temas fortes, como abuso de drogas, aborto, luto, estupro, abandono… Mas todos tratados em histórias que, fora a temática, têm personagens hilárias, bem construídas e com passagens engraçadíssimas.

É o caso da Helen, uma das irmãs Walsh. Vários livros trazem as mulheres dessa família, irlandesas que vivem dramas tocantes e são meio amalucadas. Para resumir, Helen, ao longo dos livros lançados, passa de adolescente linda e pentelha a adulta sagaz. Ela se torna detetive particular e por seu humor peculiar já levou mais de um livro nas costas. Não vou ficar aqui dando spoiler, exceto um: a lista da pá, que aparece no livro “Chá de Sumiço”.

A Helen criou uma lista mental em que ela coloca absolutamente tudo e todos em que ela gostaria de bater com uma pá. Simples assim. Nem que não dê para bater com uma pá literalmente. Desde que li esse livro, obviamente criei a minha lista da pá. Figuram nela: qualquer produto com cheiro de lavanda; o filme “Vende-se esta casa”; atendentes de call center mal-educados ou mal-informados (caos center); pessoas que falam perto demais; as últimas temporadas de The Walking Dead; entregadores do Uber Eats que derrubam sua pizza no chão antes de entregar; parentes que te excluem por opinião política divergente; computador que trava (esse está no topo da lista); batata-frita mole; paralisia facial; macarons; canetas que falham; roupa apertada; fake news; gente que não dá seta no trânsito; pessoas escrotas no geral; chuveiro que não regula; tampas que não abrem facilmente; produtos para canhotos que nunca são práticos; benzetacil; mosquitos; crossfit – e muitas outras coisas que é melhor nem listar pra não gerar muita polêmica.

Agora desafio você a fazer sua própria lista da pá. Garanto que você vai se divertir justo com o que mais detesta.

Luciana Penante

10
jul

Palavras são pequenas demais para descrever o amor pelas palavras

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Nos últimos anos comecei a pensar realmente em quanto gosto de palavras. Eu já desconfiava que gostava de ler e escrever quando escolhi o jornalismo como profissão, mas não imaginava que encontraria um jeito tão peculiar de adotar palavras específicas como prediletas. Inclusive predileta é uma das minhas palavras favoritas.

Eu me pego rindo sozinho das maluquices, bisbilhotagens e idiossincrasias presentes na nossa língua. Quando tenho fome, lembro dos quitutes e guloseimas preparados por minha vó, sempre em suas cumbucas de madeira. Na rua, a atenção se volta para os paralelepípedos e os períbolos, que nada mais são do que o espaço entre os edifícios e os muros.

As palavras me confortam em todos os momentos. Se estou rindo, elas podem expressar júbilo, deleite ou regozijo. Se triste, logo vêm para representar meu desalento, infortúnio e melancolia. Por sinal, esta última é o título de um ótimo filme. Contudo, se estou com raiva, as palavras parecem me faltar. Penso, repenso, trepenso…mas as minhas favoritas não pululam na lembrança. Droga! Somente dois dias depois é que me lembro dos substantivos requintados para referir-me ao indivíduo responsável pelo meu lamento, como: biltre, calhorda, paspalho e salafrário. Merecendo até um safanão.

É muito peculiar a forma como podemos montar um texto e titerear as palavras como personagens de um contexto muito maior. As palavras ‘fulguram’ na mente como chamas a bruxulear, sibilantes, sussurrando: sou importante. A pantomima da imaginação se desenrola de forma tão natural quanto um bordão. Eu me perco nos pirilampos sassaricando pelo pensamento e quase esqueço de voltar para a realidade mequetrefe. Tédio.

Infelizmente, atualmente, a minha mente somente se vê descrente com a crescente utilização de neologismos e estrangeirismos, principalmente na área da comunicação. Eles me incomodam tanto ou mais do que a você com a sensação de eco e repetição na última frase. É muito job, paper, meeting, call e budget para pouco afazer, artigo, tertúlia profissional, ligação e orçamento. Fico iracundo.

Porém, não declaro guerra a expressões em línguas estrangeiras. Aliás, diga-se de passagem, meu devotamento às palavras não se restringe ao português. Belezas como bibelot e wanderlust não se encontram todo dia. Até expressões como levar o Bernardo às compras, dos nossos irmãos lusitanos, têm lugar cativo no meu coração.

Deixe-me ir. Já perdi muito tempo. A procrastinação é uma presença constante nos devaneios diários. Já passei por tantas oscitações, paradigmas e clichês que voltar aos afazeres me parece tarefa hercúlea, tanto quanto soletrar a doença de quem aspira as cinzas de um vulcão: pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico!

Lucas Jensen

3
jul

Memórias artísticas

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Muitas exposições de arte me marcaram em diferentes fases da vida. Ainda me lembro de quando, aos 14 anos, visitei o Museu Oscar Niemeyer pela primeira vez — creio que foi, na verdade, uma das minhas primeiras visitas a um museu na vida. Fui para lá com a minha família e me surpreendi ao ver que havia uma exposição de um artista tão conhecido. Era a mostra “Picasso: Paixão e Erotismo”, que contava com dezenas de gravuras feitas pelo mestre espanhol.

Mais ou menos na mesma época tive meu primeiro contato com a arte contemporânea. Em uma atividade extraclasse da disciplina de educação artística, fomos ao Museu Alfredo Anderson e uma obra em particular chamou minha atenção. Tratava-se de um grande amontoado de geleca branca, que os visitantes podiam tocar. Então aquilo também poderia ser arte? Para mim, então uma adolescente descobrindo as possibilidades artísticas do mundo, aquilo parecia revolucionário.

As aulas de educação artística do colégio sempre estiveram entre as minhas preferidas, e as minhas primeiras visitas a museus inauguraram minha vida curiosa por exposições de arte ao redor do mundo. Muitas obras me marcaram especialmente: ver “Guernica”, imensa, na minha frente, no Museu Reina Sofia; observar pessoalmente, e não somente em livros de história, “A Liberdade Guiando o Povo”, no Louvre; andar, emocionada por tanta beleza, pela Sagrada Família, de Gaudí, iluminada pelas sombras coloridas produzidas pelos vitrais.

Muitos museus são jóias por si só, e dentro deles nos sentimos como em outro universo, vasculhando a vida e obra de um artista específico. Como o Museu de l’Orangerie, em Paris. Ali, o tempo e as cores são diferentes do mundo exterior: tudo ganha o ritmo e os tons de Monet. Os imensos painéis das ninfeias do artista francês cobrem as paredes arredondadas, que nos cercam como um abraço. O museu é um dos muitos cenários encantadores que compõe o filme “Meia Noite em Paris”, de Woody Allen.

Recentemente, tive a oportunidade de visitar o Museu Van Gogh, em Amsterdam. É praticamente impossível não conhecer pelo menos as obras mais famosas de Van Gogh que são referenciadas em milhares de livros, fotografias e releituras compartilhadas em sites e redes sociais. Suas artes inspiram também produções cinematográficas, como ‘Love Vincent’, uma animação produzida totalmente a partir de telas a óleo inspiradas na obra e vida do artista holandês. A produção, que contou com a colaboração de mais de 100 pintores, ganhou ainda mais destaque após concorrer ao Oscar de Melhor Filme de Animação em 2018.

Percorrer as salas do Museu Van Gogh é enriquecedor para qualquer pessoa que tenha interesse em arte. As obras estão expostas em ordem cronológica, o que permite que tenhamos uma compreensão da evolução do pintor em seu curto (porém extremamente frutífero) período de produção. Ver as obras de Van Gogh pessoalmente foi uma experiência inesquecível. As texturas e as cores que ele obteve para suas pinturas nunca serão igualmente reproduzidas em meio online ou impresso. Ao vivo podemos apreciar cada detalhe de seus azuis vibrantes, verdes intensos e vermelhos radiantes. Guardo comigo, em um lugar especial, o amarelo que reluz como ouro de seus girassóis.

Stephanie D’Ornelas

25
jun

Os livros do semestre

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Esse ano, infelizmente, não estou conseguindo ler tanto quanto li no ano passado. Já foram 14 livros até agora, mas ano passado eu já tinha lido uns 25 neste mesmo período! É triste, porque um dos meus objetivos de 2019 era ler ainda mais, mas parece que o tempo anda cada vez mais curto, credo!

Mas ainda assim dá para ler, porque sempre temos aquele tempinho do ônibus-trabalho-trabalho-casa, as filas, o esperar alguém ou aquela leitura rápida antes de adormecer à noite.

Para quem quer engatar na leitura neste segundo semestre ou está procurando novos livros, aqui vai uma pequena lista dos 5 melhores livros que ali até agora em 2019.

Beijos

Rodrigo

  1. Olhai os lírios do campo (Érico Veríssimo)

Eugênio Pontes, moço de origem humilde, a custo se forma médico e, graças a um casamento por interesse, ingressa na elite da sociedade. Nesse percurso, porém, é obrigado a virar as costas para a família, deixar de lado antigos ideais humanitários e abandonar a mulher que realmente ama. Sensível, “Olhai os Lírios do Campo” é um convite à reflexão sobre os valores autênticos da vida.

  1. Vozes de Tchernóbil (Svetlana Aleksiévitch)

Esse é para quem adorou a série da HBO. Em abril de 1986, uma explosão na usina nuclear de Tchernóbil, na Ucrânia — então parte da finada União Soviética —, provocou uma catástrofe sem precedentes: uma quantidade imensa de partículas radioativas foi lançada na atmosfera e a cidade de Pripyat teve que ser imediatamente evacuada. Tão grave quanto o acidente foi a postura dos governantes soviéticos, que expunham trabalhadores, cientistas e soldados à morte durante os reparos na usina. Pessoas comuns, que mantinham a fé no grande império comunista, pereciam após poucos dias de serviço. Por meio das vozes dos envolvidos na tragédia, Svetlana Aleksiévitch constrói este livro arrebatador, que tem a força das melhores reportagens jornalísticas e a potência dos maiores romances literários.

  1. Éramos Seis (Maria José Dupré)

Lindo, lindo, lindo e lindo. Chorei largado. A história de Dona Lola e sua família, uma bondosa e batalhadora mulher que faz de tudo pela felicidade do marido, Júlio, e dos quatro filhos: Carlos, Alfredo, Julinho e Maria Isabel. A vida de Dona Lola é narrada desde a infância das crianças, quando Júlio trabalha para pagar as prestações da casa onde moram, passando pela chegada dos filhos à fase adulta e de Dona Lola à velhice. Conforme os anos passam, vão se modificando as coisas na vida de Dona Lola: a morte de Júlio; o sumiço de Alfredo pelo mundo; a união de Isabel com Felício, um homem separado; a ascensão de Julinho, que se casa com uma moça de família rica. O título do livro vem da situação de Dona Lola ao fim da vida, sozinha num asilo: eram seis, agora só resta ela.

  1. Como as democracias morrem (Steven Levitsky e Daniel Ziblatt)

Assustador, absolutamente assustador analisar o que está ocorrendo no mundo todo, especialmente nos EUA, e fazer um paralelo com o Brasil. Se até nos EUA, que têm uma Constituição sólida, antiga e robusta, a democracia está em jogo, imagine no Brasil, com sua jovem democracia e um povo que ama o passado e flerta com a autocracia. Interessante a análise dos autores, também, ao refletir sobre o papel dos partidos políticos. Enfim, livro recomendadíssimo para entender o que está acontecendo, que só peca por causa das repetições e reiterações.

  1. A Gorda (Isabela Figueiredo)

É sobre uma mulher gorda e como esse fato influencia todos os acontecimentos de sua vida, mas não é só sobre isso. É sobre isso e muito mais. Isabela Figueiredo tem uma sensibilidade para falar sobre família, amizade, preconceito e amadurecimento que me emocionou demais. Algumas passagens me marcaram fortemente. A escrita é sincera, dolorida e fala a todos nós – gordos ou magros. A protagonista erra, tem opiniões contraditórias, age de forma preconceituosa e, por vezes, machuca o leitor. Ou seja, exatamente como nós. Livro para ler e se olhar no espelho depois. Recomendo demais.

“Eles riem enquanto caminho, eles falam sozinhos, ‘ó orca, grande fúria dos mares, já comeste hoje alguém?!’. Riem. Divertem-se, pueris e crus. Mas a baleia ouve. Não querendo, as frases ficam inscritas no mesmo cérebro que as rejeita. A baleia. A orca. O monstro. Eu era uma miséria de mulher, um torpor, uma dor que já nem dói. Um farrapo de lã que já não aquece. Já não pretendia esconder-me do que tinha sido e fingir uma perfeição que não me assentava. Quebrara-me de novo em fragmentos, como se quebra o vidro e as pessoas. E de cada vez que me quebrava não era possível voltar ao que era antes.”